De bruços, as pernas dobradas para cima, ela mordia a ponta da esferográfica, enquanto olhava para o diário aberto sobre a cama. No alto, a data e o dia da semana. Abaixo, havia escrito: “Tarde de sol, bem depois das seis e meia, um calorão danado. Por que a vida é tão difícil?”
Após haver grifado a palavra difícil, Lília mordeu mais forte a esferográfica como se forçasse uma resposta.
De repente, tocada por uma súbita inspiração, foi escrevendo e dizendo em voz alta:

...
“Em meu coração jovem há tantos caminhos que não consigo percorrer! Por que sou assim tão contraditória? Agora estou triste. . . agora estou alegre.. . Aqui estou radiante mas, ali adiante, sou toda lágrimas! Por que não sou sol-amarelo-calor-e-luz? Por que não aprendo a caminhar sem ter destino até o encontro dos braços que me amem? Braços que me aqueçam... braços que tirem de mim todo o sol que tenho para dar ao mundo!”
- A Ladeira da Saudade , de Ganymédes José
Nenhum comentário:
Postar um comentário